Enviamos nossas análises sobre vieses raciais em sistemas de score de crédito ao processo de escuta do governo federal sobre racismo no ambiente digital.
Em setembro de 2025, o Governo Federal abriu a Consulta Pública sobre o Combate ao Racismo nas Plataformas Digitais, iniciativa conduzida pela Secretaria de Comunicação Social (Secom-PR) e pelo Ministério da Igualdade Racial. Com prazo até outubro de 2025, a consulta convidou a sociedade civil, pesquisadores e especialistas a contribuir com evidências e propostas para a construção de políticas públicas sobre o tema.
Quando o algoritmo decide quem merece crédito
Nossa contribuição abordou um ponto-cego do debate sobre racismo digital: os sistemas automatizados de pontuação de crédito, os chamados credit scores. Operados por birôs como Serasa, SPC Brasil, Boa Vista e Quod, esses sistemas traduzem trajetórias financeiras em números. Com isso, definem quem é considerado um “bom pagador” e quem permanece às margens do sistema financeiro.
Quando treinados sobre dados que refletem décadas de exclusão racial no acesso a emprego formal, moradia, crédito e renda, esses sistemas não corrigem desigualdades: as reforçam. Com a aparência de objetividade e sem o constrangimento da responsabilização. A linguagem do mérito (“comportamento financeiro”, “probabilidade de pagar em dia”) encobre o que na prática funciona como um filtro racializado de inclusão e exclusão financeira.
Uma pesquisa com financiamento internacional, um debate ainda incipiente no Brasil
As análises que fundamentaram nossa contribuição foram resultado da primeira etapa de um estudo sobre os impactos econômicos do racismo em sistemas de score de crédito: proposta premiada e financiada pela organização Data for Black Lives (D4BL) entre 2024 e 2025. A segunda etapa da pesquisa, voltada ao levantamento e interpretação de indicadores socioeconômicos, segue em andamento em 2026 com apoio do Fundo Brasil.
Por que isso é pauta de racismo digital
Os sistemas de score de crédito operam em plataformas digitais, processam dados pessoais em larga escala e produzem efeitos concretos sobre a vida de milhões de pessoas. Não são ferramentas neutras de gestão de risco: são infraestrutura de poder, e como tal precisam ser reguladas com critério racial explícito.
Nossa contribuição à consulta defende que qualquer diretriz pública sobre racismo em plataformas digitais precisa incluir:
- Transparência algorítmica obrigatória para sistemas de pontuação de crédito;
- Avaliação periódica de impacto racial nos modelos preditivos dos birôs;
- Reconhecimento explícito, na regulação brasileira, de que discriminação indireta por algoritmo é discriminação racial.
O que vem a seguir
Com a segunda etapa da pesquisa em curso, o Instituto DOT continuará acompanhando o processo de construção do documento de referência que a consulta pretende produzir e pressionando para que o debate sobre racismo algorítmico não fique restrito ao que as plataformas de redes sociais fazem com o discurso de ódio. A discriminação econômica mediada por código precisa entrar na agenda.
Acesse nossa contribuição pública aqui.
O Instituto DOT é uma organização sem fins lucrativos dedicada à defesa dos direitos humanos e ao impacto em políticas públicas, atuando como ponto de conexão entre pesquisa, tecnologia e experimentação criativa.



